Terça-feira, Outubro 26, 2004
Apenas um devaneio sobre trabalho
Outro dia reencontrei uma colega dos tempos de faculdade. Disse que estava trabalhando numa empresa que terceiriza serviços de assessoria de comunicação, no departamento de clipping. Ela estampava um belo sorriso ao comentar sobre o que fazia.
Depois que me despedi, fiquei encasquetado pensando na vida (ando muito reflexivo ultimamente, sabe-se lá por quê). Os jornalistas, pelo menos aqui em Belém, são meio segregados entre os que seguem a carreira nas assessorias e os que seguem carreira nas redações. Pertenço, obviamente, ao segundo grupo. E estou mais acostumado com colegas que têm aquele perfil boêmio - neguinho que fuma horrores, não arranja pretexto para uma cervejada e, por último mas não menos importante, ganha mal pra caralho.
Do outro lado, estão os assessores que sempre estão bem vestidos, são mais polidos no linguajar e nos atos, mais chapa-branca e, inevitavelmente, ganham mais dinheiro. Isso porque exercem cargos de confiança das empresas, ao contrário de repórteres, que mal merecem a confiança de familiares e namoradas(os), e vivem para detonar os peixes graúdos.
Aí fiz um link com a situação da minha colega de curso. Não sei se me sentiria bem se estivesse no lugar dela. Quatro anos de faculdade para trabalhar cortando jornal e transcrevendo matérias de TV e rádio. Que fique claro: não estou desmerecendo emprego algum, mas eu preferiria trabalhar como balconista de locadora de vídeo ou loja de CDs. Ou, quem sabe, como vendedor numa livraria.
Quando eu era criança, tinha uma profissão dos sonhos: detetive. Eu via os desenhos animados e filmes e me impressionava com a vida dos investigadores e com a inteligência deles. O tempo passou e acabei optando pelo jornalismo, que em alguns momentos não deixa de ser uma forma um pouco mais legítima de investigação. Mas não descarto uma pequena guinada na minha vida para realizar esse sonho de criança. Um curso de detetive? Um concurso de agente da Polícia Federal? Quem sabe... Eu mesmo não sei. Só sei que cortar jornal não é a minha.
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2:50 PM |
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Quinta-feira, Outubro 07, 2004
Nos bastidores do "só love"
Quem já foi a um motel que não era algo assim cinco estrelas já ficou noiado com uma coisa. A falta de isolamento acústico no apartamento faz com que qualquer passo dado do lado de lá da janelinha por onde passa a conta seja ouvido dentro do ambiente onde rola o "só love". Quantas vezes a sua garota não ficou incomodada com aquilo? Ou você mesmo, será que nunca soltou um "caralho, não pára de passar gente aí fora?". Nos motéis de maior porte, até barulho de vozes no rádio se escuta. Nos mais direcionados ao povão, é possível participar involuntariamente de diálogos na saleta de espera.
E foi para matar sua curiosidade (e a minha também) que este investigativo blog foi a fundo no submundo das casas do amor. Mais especificamente em um motel da região metropolitana de Belém. Não interessa o que aconteceu antes ou depois dos fatos descritos nesta reportagem, o certo é que invadi o famoso corredorzinho. É o lugar onde a vida pulsa, vai e vem. Mas sem conotação sexual.
Assim que ultrapassei a fronteira entre o prazer e o trabalho em função do prazer dos outros, me impressionei com a quantidade de pessoas que ali prestavam serviços. Vi cerca de doze funcionários, entre camareiras e auxiliares de gerência. Todos sempre sérios, sem nenhum vestígio de má intenção nas expressões faciais. As senhoras pareciam limpar quartos de apartamentos de família. Os rapazes pareciam levar e trazer bebidas para consumidores de restaurantes classe média.
O corredor é estreito e comprido. Menos de dois metros de largura e uns duzentos de extensão, pelo menos. Parece um grande depósito. No meio do caminho vejo armários com toalhas e lençóis, engradados de cerveja e refrigerante, máquinas de cartão de crédito, cestões de lixo, roupas de cama sujas e emboladas e as pessoas circulando de um lado para o outro. Todo mundo se comunicando por rádio. "Está liberada a suíte imperial?", "Não tá passando o cartão nessa máquina" e "Checa o consumo do 210" são algumas das mensagens que consigo ouvir. Não escutei barulho nenhum vindo de dentro dos quartos. Ou eram pessoas quietinhas demais ou aquela noite não estava muito movimentada.
Continuando a minha caminhada, passo por portas abertas e vestígios de transas recém-consumadas. Camas desarrumadas, copos de uísque pela metade (que desperdício!) e sujos de batom. As camareiras recolhem do lixo camisinhas usadas, preenchidas pelo líquido da procriação. Algumas das senhoras parecem não vivenciar pessoalmente há muito tempo a causa daquele dejeto seminal.
Uma da parte mais interessante desses bastidores é a sala da gerência. Num cômodo de aproximadamente 3 por 3, fica a administradora de plantão. Ela toma conta do caixa, fecha as contas dos clientes e cuida da programação audiovisual que os apartamentos recebem. Na saleta estão dois videocassetes, três DVDs e três monitores de TV. Num deles passa um jogo do campeonato brasileiro. No segundo, um show da Banda Calypso. No terceiro, algo mais condizente com o ambiente: o filme "Orgias na Escola". No mesmo rack, está um aparelho de MD em que as famosas músicas de motel tocam a noite toda. E tome "Slave to Love" no repeat... A supervisão é de uma simpática balzaquiana que gerencia tudo aquilo como se cuidasse de uma escola infantil. Na geladeira que também está na sala, ela aparece em três fotos grudadas com aqueles ímãs típicos. Numa delas, uma criança apaga velinhas de aniversário. Parece ser filha da gerente. Outra das fotos parece registrar uma outra festa de aniversário, só que comemorada no corredor do motel! Se os clientes podem festejar de um lado da parede, por que os funcionários não poderiam festejar do outro?
E é assim que termina este relato. Gostaria de poder entrar em mais detalhes sobre a personalidade daqueles que trabalham para que você possa ter todo o conforto na hora de amar ou dar uma puladinha de cerca. Só que minha presença nos bastidores do motel foi motivo de olhares desconfiados. É totalmente incomum deixar que os clientes acessem a área dos empregados. Plenamente compreensível. Afinal, se os funcionários invadissem seu espaço, você provavelmente não os receberia com naturalidade. É na base do cada um na sua que se ganha a freguesia.
-- posted by Leonardo at
7:21 PM |
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Leonardo, 21 anos, Belém-PA, jornalista recém-formado. Música, cinema,
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